Por
que é mais fácil salvar baleias do que florestas?
“Seus netos vão lhe
perguntar em poucos anos/pelas baleias que cruzavam oceanos/ Que eles viram em
velhos livros/ Ou nos filmes dos arquivos/ Dos programas vespertinos de televisão.”
É,
meu povo... Em 1981 Roberto Carlos lançava esta belíssima canção, intitulada “As
baleias”. Gravou outras canções de protesto, em defesa dos índios, da Amazônia,
contra o desmatamento, enfim... A lista é longa, papo para outros textos,
talvez... O fato é que o engajamento de celebridades à causa das baleias surtiu
o efeito desejado – a partir de 1987, com a sanção da lei Gastone Righi por
José Sarney, a “pesca” foi proibida no Brasil.
Na
mesma tirada de ativismo celebridade, em 2007, na onda da minissérie “Amazônia,
de Galvez a Chico Mendes”, encabeçados pela atriz Christiane Torloni, vários
artistas lançaram o manifesto “Amazônia para Sempre”, convocando a sociedade
para coleta de assinaturas e engajamento para ações de proteção à floresta. A
ideia não colou. Na década de 80, quando a legislação ambiental nem era tão
discutida, a vitória dos grupos ambientalistas foi histórica, e em pleno século
XXI, com inúmeras pautas verdes, o apelo pela Amazônia não surtiu o efeito
desejado. Mas por quê? A resposta é complexa. Parece aqueles sistemas de equações
que a gente nunca sabe se respondeu certo, mas vou tentar seguir uma linha de
raciocínio.
O caso das baleias
O
primeiro ponto importante é que não foi o ativismo de olhos azuis que fez com
que praticamente todos os países, com exceção do Japão e da Noruega,
decretassem a moratória da baleação (nome que se dá à “pesca” desse mamífero). O
que ocorreu foi que a partir do início do século XIX o custo da atividade era
muito alto. Com a captura excessiva, as baleias se tornaram escassas. Era como
procurar uma agulha num palheiro.
Os
baleeiros saíam em expedições cada vez mais longas, distantes da costa. Comandantes
experientes conheciam as rotas migratórias das espécies de interesse, como a
baleia franca e os cachalotes. Havia uma certa soberba, até que o naufrágio do
Essex, em 1820, mostrado no filme “No Coração do Mar” (sem spoilers), mostrou à
comunidade náutica o quão perigosas eram tais caçadas. Jovens aspirantes a
marinheiros passaram a preferir a Marinha de Guerra ou a Marinha Mercante,
ambas mais prestigiosas do que os baleeiros, e a tripulação desses barcos foi paulatinamente
envelhecendo. Algumas décadas depois, em 1859, o petróleo em terra foi
descoberto, substituindo o óleo de baleia em diversos insumos industriais. Passada
a Segunda Guerra, a frota baleeira já estava reduzida e grupos ambientalistas,
como o Greenpeace, surgido na década de 70, só apressaram o fim de uma captura
em declínio.
Ou
seja: o ativismo frutificou porque foi semeado em terreno propício, onde a
falta de interesse econômico, a causa ambiental e a opinião pública se
abraçaram. O Brasil seguiu uma tendência já acenada por outros países a partir
de 1982, com a Comissão Baleeira Internacional, que pedia a moratória. Houve
lobby do setor baleeiro no país, mas ainda assim a pressão social venceu.
Ecologia ou jardinagem?
Segundo
ponto: com desigualdades sociais gritantes, a causa contra o desmatamento parece
uma luta burguesa, embora, muito pelo contrário, não seja. Assim, as camadas
populares nas periferias das cidades não se identificam com ela. Milhões estão tão ocupados
em sobreviver que onça-pintada e tamanduá-bandeira são supérfluos.
Terceiro:
somos permissivos demais com o desmatamento. Etimologicamente “eiro” se usa
para profissões (padeiro, joalheiro, cabeleireiro, etc.), brasileiro, que
designa nossa nacionalidade, nada mais é do que a profissão de desmatador,
palavra que os jesuítas utilizavam para chamar quem viva aqui pelos mil e
quinhentos e bolinha. Pode parecer bobagem, mas o etos do brasileiro encara que
é aceitável desmatar em nome do progresso. É como se uma voz interna repetisse:
“Mas sempre foi assim!” Se for necessário destruir um mangue pra construção de
um resort de luxo à beira-mar, ok, ninguém contesta. Ou melhor, poucos contestam,
mas são vencidos. Mesmo a classe média, que poderia ter endossado o manifesto
de 2007, tem uma visão muito limitada. Acha que a floresta é árvore e bicho e
mais nada. É aquele povo que diz que índio não tem que ter terra, que as nações
de primeiro mundo já acabaram com as florestas delas e não tem que dar pitaco
nas nossas (como se um erro justificasse outro). É o famoso ponto de vista do “cidadão
de bem”, que nos levou aonde levou...
Quarto:
as milícias rurais tem cadeiras cativas no Legislativo. Grileiros, garimpeiros
e madeireiros tem relações muito intrincadas de poder dentro das bancadas da
bíblia, do boi e da bala. As leis de proteção ambiental se flexibilizam em
torno dos interesses financeiros. Assim, a impunidade para crimes ambientais é
regra, não exceção. Enquanto não houver mais benefícios para quem manter a
Floresta em pé, em detrimento de anistia para desmatador, o prato da balança
não vai pender a nosso favor. Vai demorar muito para que o jogo vire. A representatividade
política dos atores sociais da Floresta vem crescendo timidamente, mas é uma
centelha de esperança.
Quinto: engolimos o engodo de que o
agronegócio salva a economia. Na verdade, a expansão das fronteiras agrícolas e
pastagens são os grandes aceleradores da tragédia. Acabam entrando em conflito
latifundiários e pequenos produtores. Quem sai perdendo são os últimos, claro. Mesmo os governos de esquerda não foram capazes
de tocar em questões progressistas, como a Reforma Agrária e a Demarcação de
Terras Indígenas. Sem garantias constitucionais, não há como proteger e
fomentar o desenvolvimento sustentável das pequenas e médias propriedades, a
exemplo das reservas extrativistas, cooperativas, casas de farinha e outros.
Chico
Mendes dizia que “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”, e ele estava
certo. Defender a floresta é estar ao lado dos pequenos, da ponta mais fraca da
corda. Por isso não avançamos: não acolhemos as minorias. Salvamos as baleias,
mas deixamos a floresta morrer um pouco a cada dia. O reencontro com os povos
originários, populações ribeirinhas e comunidades tradicionais precisa acordar
o Gigante. Um movimento interno, a força motriz da mudança social que queremos.
Não quero que “meus netos me perguntem em poucos anos” – quero que sintam,
vejam e vivam.
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